DeepFakes e os riscos para a Democracia.
Dilemas éticos.
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| Sátira da Revista Judge sobre a morte de um trabalhor em fios de alta tensão. A energia elétrica ainda era novidade e vista com cautela em 1889. |
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| Sátira da Revista Judge sobre a morte de um trabalhor em fios de alta tensão. A energia elétrica ainda era novidade e vista com cautela em 1889. |
O século 21 é o século da tecnologia. Praticamente todos que vemos na rua tem contato com algum equipamento eletrônico, provavelmente o celular no bolso, e através dele podemos fazer praticamente tudo. Conversar por texto, por voz, gravar vídeos, fotos, áudios, pagar contas, jogar, checar as notícias, ver filmes, escutar músicas, além do fácil acesso à todo tipo de informação; as possibilidades são quase infinitas. Então, por que alguém iria recorrer a outra ferramenta?
Ocorre uma movimentação interessante nos últimos anos do mercado fonográfico, onde a procura por CDs, mas especialmente por discos de vinil. Segundo a Luminate Data Reports, em seu relatório chamado "Top Entertainment Trends for 2023", apenas 50% dos consumidores que adquiriram um vinil possuem um toca-discos disponível em sua casa. Os outros 50% não possuem meios para escutá-los.
Mas porque isso ocorre? Porque comprar discos quando se tem outras opções para se escutar música? E porque comprar discos quando não se tem como escutâ-los? Nós visitamos a Hi5 em busca de respostas e entrevistamos Pedro Maia, estudante de História do UFCE e vendedor de discos na Hi5.
- Pois, Pedro, aqui a gente está na Hi5, uma loja de vinis, tem uma coleção bem interessante, mas vai um pouco na contramão do que nós vemos hoje em dia, com tantas plataformas de streaming como o Spotify, como o Deezer. Aí eu queria saber como é que é para você, como um lojista, como um vendedor por aqui, atuar com uma mídia antiga? Você sente que ainda tem espaço no mercado para isso?
- Falando na minha situação de mercado, a mídia física, em especial o vinil, ela tem ganhado muita força, principalmente nos últimos anos. Dá para a gente dizer que ela nunca, na verdade, saiu do mercado. E que, principalmente nos últimos anos, ela vem ganhando cada vez mais adeptos, principalmente entre a geração mais nova, como é a nossa. Gente entre os seus 20, 30 anos, 30 e poucos anos. A gente vê um movimento de retorno também por parte de pessoas mais velhas, gente que está na faixa dos seus 40 para cima e que vivenciou isso durante a juventude, a infância. Então tem tanto essa parte da nostalgia, mas também tem muita gente nova, que nunca viveu isso e que está adentrando nesse mundo. Inclusive com o meio de artistas novos que continuam lançando discos. A gente vê que, por exemplo, a gente tem discos da Marina Sena, discos da Duda Beach, discos da Taylor Swift, de bandas mais novas, como Black Pumas, etc. Então a gente consegue abarcar uma gama muito grande de clientes de vários nichos.
- Você comentou um pouco sobre esse retorno. Muitas pessoas que viveram o vinil na juventude, com seus 40, 50 anos, e aí tem um sentimento de nostalgia que eu entendo o porquê desse retorno. Mas por que sente que os jovens estão indo atrás disso agora?
-Eu acho que o vinil e as mídias físicas em geral, mas o vinil especialmente, ele proporciona uma experiência diferenciada. Acho que até tem a ver com a proximidade que você tem. Você pegar o disco, olhar a capa, ver o encarte, um material gráfico às vezes mais elaborado que alguns discos trazem. É uma forma de se conectar realmente com o mundo e com o artista que você gosta. E eu entendo também que é uma forma de você se relacionar com a música de um jeito mais profundo, porque exige um ritual, de alguma maneira. Você pegar e botar a música pra tocar do começo ao fim, virar o ar, escutar um álbum completo, entender e aproveitar essa obra completa que, queira ou não queira, não é mais tão comum hoje em dia, é uma coisa que só o vinil traz.
- É algo interessante porque me parece um movimento quase que de antimodernidade. A gente tá tão envolto, a tecnologia nova, de sempre ficar imerso em rede social, que você poder voltar, poder focar só em um disco, só em algo nesse momento, me parece quase que um retorno a como se fazia antigamente.
- Eu não diria que chegue a ser antimoderno, mas eu entendo mais como um movimento de desaceleração. Porque como a gente tem visto, desde que... sei lá, acho que desde a popularização dos smartphones, digamos assim, a gente vê um crescente nessa... como se pode dizer? Um movimento frenético mesmo, de ritmo, um ritmo frenético de vida, de consumo de mídias em geral, com as redes sociais, Instagram. A gente se vê, às vezes, bombardeado o tempo todo, com muita informação, muitos estímulos mesmo, visuais, sonoros. Então quando você para um pouco e tenta sair disso, e o disco proporciona isso, realmente é uma coisa de desacelerar mesmo o ritmo, de poder relaxar. A gente vê isso muito comumente, nos consumidores, nos nossos clientes. É algo bem comum entre eles.
- Muito se fala sobre essa volta do vinil nos últimos anos, mas realmente é uma crítica muito pertinente a se fazer em relação à possibilidade de acesso. Porque quem consegue consumir hoje os discos de vinil, geralmente é um pessoal de classe média, classe média alta. Porque para você, desde você conseguir adquirir um aparelho, seja ele novo, seja antigo, é um valor a se investir em torno de uns mil reais para cima. De aparelho e discos, né? De aparelho, só o aparelho começa a partir de uns 500 reais, dependendo dos modelos mais simples. E os discos de vinil também, eles estão cada vez mais caros. Acho que muito por um fator de produção. Aqui no Brasil a gente tem atualmente duas fábricas só, e que não dão conta da demanda dos artistas. Isso porque a gente está falando só de um mercado de artistas brasileiros. Então não é comum você ver no Brasil as fábricas brasileiras produzindo discos de bandas internacionais de artistas pop, por exemplo, que representam uma demanda muito grande. Então a gente vê, principalmente o pessoal mais novo, que consome essa mídia, demandar muito artistas pop internacional. Então a gente tem muita demanda por Taylor Swift, a gente tem muita demanda por Lana Del Rey, muita demanda por Amy Winehouse, por bandas como Arctic Monkeys. Então, principalmente nos últimos anos, até com essa nova história da taxação, está muito difícil conseguir esses discos. Porque eles chegam para a gente num valor muito alto. Então, para a gente conseguir trabalhar com um disco importado como esse, seja um disco simples ou um disco que muitas vezes é duplo, a gente tem que trabalhar com um valor entre 300 e 400 reais, o que é um valor alto, infelizmente. Então, se a gente quer falar de uma volta do vinil propriamente, ele precisa ser muito mais democratizado. Então, se a gente tivesse algum tipo de incentivo fiscal, ou mesmo para facilitar essa questão da taxação, para diminuir o custo para poder trazer esses discos para o público, seria muito melhor, a gente conseguiria trabalhar com uma margem maior de lucro e, ao mesmo tempo, com um valor final menor para o nosso consumidor.
- Você comentou agora justamente sobre incentivo, sobre a cultura. Você acha que tem faltado muito em relação a isso, em relação a impostos, taxas, um incentivo real?
- Com certeza. Desde a década de 60, 70, quando o vinil era produzido em massa no Brasil, é muito comum você ver em discos de época uma frasinha chamada discocultura. E, na época, isso era justamente uma companhia do governo de incentivo fiscal, para que as gravadoras pudessem produzir os álbuns com incentivo para que pudesse ser produzido em maior quantidade e mais popularizado. E, hoje em dia, a gente não vê isso. Como tem pouca fabricação no Brasil e tem muita demanda, eu acho que se houvesse uma facilitação nesse sentido de abrir mais fábricas, porque a demanda não falta. Então, tem algumas empresas, como a Universal Music, que nos últimos anos tem investido na produção de vinil de discos do catálogo deles, discos brasileiros dos anos 70, do Caetano Veloso, da Gal, do Gil, discos que, hoje em dia, estão muito caros por serem mais raros, que estão recorrendo a fábricas argentinas, por exemplo. Então, você vê outros países, como os Estados Unidos, ou na Europa é muito mais fácil e é muito mais barato. Mesmo você calculando proporcionalmente, um disco na Europa é muito mais barato do que você for comprar um disco brasileiro prensado no Brasil.
- Tanto para o poder de compra, questão de salário mínimo de cada país.
- Exatamente. Então, proporcionalmente para eles é muito mais barato, enquanto aqui no Brasil, um disco novo, que são produzidos muitas vezes por demanda de selos pequenos, ou então os próprios artistas arcam com o custo de fabricação, que não é baixo, um disco brasileiro vai chegar, por consumidor, um valor final em torno de 150, 200 reais, às vezes um pouco mais, dependendo da questão da parte gráfica, enfim, se é um disco simples ou se é um disco duplo, mas é essa faixa.
- Eu queria também perguntar aqui um pouquinho sobre a mídia física, no sentido de conservação de cultura e história, porque a mídia digital, através da nuvem, tem grandes benefícios, mas a partir do momento em que um serviço decidir não mais dar continuidade ao serviço e apagar todos os seus dados, também se perde muita história. Às vezes um problema, um hack, seja o que for. E a mídia física também tem outros problemas. Você pode ter enchentes, há desastres naturais, mas também muita coisa permanece por causa da mídia física. Então eu queria saber de você, que trabalha com isso, que tem uma clara afeição em relação a isso, o que sente que pode ser o papel da mídia física, hoje, ainda no século XXI?
- Eu reparei que aqui, além de ser uma loja de vinil, também tem um local de confraternização. É um bar, tem várias mesas por aqui para o pessoal conversar e poder ter uma comunidade. Eu queria saber de onde veio essa ideia, se também é uma forma que vocês encaram de fazer com que a comunidade permaneça mais viva e tenha mais opções do que apenas uma loja de vinil. Como surgiu essa ideia de ser algo meio misto e como tem funcionado para vocês até então?
- Eu acho que a gente é uma das únicas lojas de Fortaleza atualmente que oferece esse misto da loja de discos, mas que também funciona como bar. Então, é realmente uma coisa que a gente deixa complementar a outra. A gente sempre tem programação de discotecagem, não só em vinil, mas digital também. A gente não descarta, justamente no sentido de fortalecer realmente. A gente tem vários frequentadores que não colecionam discos, mas que sempre estão aqui com a gente. E o nosso intuito realmente é esse, é democratizar o acesso, é mostrar para quem nunca viu um disco de vinil na vida, tocar e mostrar como funciona. Toda vez que uma pessoa chega aqui, qualquer disco que a pessoa quiser escutar da loja, se não tiver lacrado, se não for novo, a gente coloca para tocar com o maior prazer. Várias vezes aqui chega alguém que quer entrar nesse mundo do colecionismo, mas muitas vezes não sabe muito por onde. Então a gente dá essa orientação, vai mostrando o caminho das pedras, mostrando os álbuns, mostrando como é que funciona o aparelho, enfim. E é isso. A gente trabalha essa parte do bar também no final de semana como um complemento também para a gente, mas no sentido de criar essa rede e fortalecer essa cultura.
Após terminhar minha entrevista com Pedro, a dona da loja me chamou para conversar pois queria falar um pouco mais sobre o local.
(Equipe) - Na minha conversa com o Pedro e agora na conversa com a senhora eu tive a impressão que agora está se confirmando mais ainda que é um lugar que por consequência ser um público muito nichado é um lugar também que, por ter um ambiente de confraternização é um ambiente também para nutrir, é uma comunidade ao redor, eu não sei se essa foi a intenção quando você fez tudo isso.
- Eu acho que essa era a intenção de unir realmente as pessoas que gostam mas o que a gente percebeu é que não tem uma faixa etária, por exemplo a gente imaginava, quem viveu a época do vinil é que vai ter o saudosismo e vai querer comprar mas a gente vê que existe um público novo, que nunca tinha usado ou então que não tem vitrola, mas o seu ídolo lançou uma LP então a pessoa começa a comprar, depois que vai comprar a vitrola às vezes junta só por causa do cantor, que é um cantor que gosta. Existe o nicho, mas não de faixa etária e às vezes a pessoa não compra o vinil, mas também vem pelo ambiente por ser um ambiente de música, como o Pedro falou. Tem DJ, tem o bar, então começa a desfrutar disso também.
A entrevista foi produtiva e trouxe reflexões interessantes sobre o mundo contemporâneo. Onde existem tantas possibilidades para se consumir em diferentes tipos de mídia, escolher o disco de vinil traz questões interessantes, que foram em grande parte respondidas. Seja pela qualidade, pelo aspecto nostálgico ou como uma oportunidade de desacelerar e poder encontrar prazer em apenas uma única atividade, é notável como essa tecnologia encontra espaço entre diversas faixas etárias, demonstrando força para permanecer adoradada e consumida por um mercado consumidor fiel e crescente.
Se quiser visitar a Hi5 e conhecer um pouco mais do universo fonográfico, sinta-se livre para seguí-los no instagram @hifivediscos e visitá-los. Abertos nas terças e quintas das 11h às 19h e nas sextas e sábados das 11h às 22h.
A Inteligência Artificial é uma das mais notáveis inovações tecnológicas dos nossos tempos, oferecendo um potencial imenso para transformar ...