segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Artigo de Opinião: Inteligência Artificial, Realidade, Democracia e debates necessários.



A Inteligência Artificial é uma das mais notáveis inovações tecnológicas dos nossos tempos, oferecendo um potencial imenso para transformar a forma como vivemos e trabalhamos. No entanto, é crucial que abordemos essa tecnologia com um senso de prudência. Embora a IA possa trazer benefícios significativos, como eficiência e novas capacidades, também precisamos estar atentos às questões de privacidade e ética que surgem com seu uso crescente.

O parágrafo introdutório acima foi escrito com a Inteligência Artificial ChatGPT 4.0. Não se preocupe, tudo que você lerá a partir daqui foi escrito por mim, porém gostaria de perguntar ao leitor: você percebeu que o primeiro parágrafo foi escrito por uma inteligência artificial? Sentiu que havia uma padronização ou estilo no texto diferente do que um humano normalmente escreveria, ou é apenas mais um texto normal para você?

Muitos não saberiam responder com confiança, mas não se culpe por isso. Até ferramentas especializadas nesse trabalho tem dificuldades, como pode ver na imagem abaixo:


Esse print foi feito no site NeuralWriter em sua ferramenta "Detector de Conteúdo Gerado por IA", e aponta que o texto criado pelo ChatGPT 4.0 tem 95% de probabilidade de ter sido escrito por um humano. Segundo o exposto no próprio site sobre como a ferramenta funciona,"Ele presta atenção a várias características do texto, como estilo, complexidade e uso de palavras. Após o reconhecimento, o detector compara essas características com como as pessoas geralmente escrevem e como a IA escreve".

O uso de IAs não se limita apenas aos textos. Um de seus usos é na produção audiovisual como no clipe abaixo, que permite criar com apenas alguns comandos um clipe extravagante que normalmente custaria centenas de milhares de dólares.


DeepFakes e os riscos para a Democracia.


Apesar da possibilidade de criar textos, imagens e vídeos elaborados de forma simples e rápida, também se abre uma porta perigosa para o uso desonesto das ferramentas na esfera pessoal e política.

O vídeo abaixo mostra a apresentadora Renata Vasconcelos do Jornal Nacional dando uma notícia sobre a nova pesquisa eleitoral encomendada pela Rede Globo. Contudo, o vídeo sofre um corte onde a imagem de uma pesquisa falsa de intenção de votos aparece, junto a voz da Renata Vasconcelos corroborando com os dados da pesquisa. Para quem está mais familizarizado com as ferramentas é possível perceber os trechos que são reais, assim como os defeitos da voz produzida artificialmente, mas esses detalhes podem passar desapercebidos para o espectador desavisado.



No vídeo abaixo, vemos uma Deep Fake (IA) que reproduziu a imagem e voz do ex-presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Barack Obama. 


Pesquisadores da Universidade de Washington criaram um "Obama Artificial" usando uma IA para identificar e modelar o formato da boca de Obama, conseguindo reproduzi-la perfeitamente por cima de gravações já pré-existentes. Eles se utilizaram de mais de 14 horas de gravações com áudio para que a máquina pudesse "aprender" os padrões de seu rosto, modo de fala e voz.

Tanto a alteração na voz da Renata Vasconcelos como no rosto e voz do Barack Obama são exemplos de Deepfake, uma técnica de inteligência artificial. Desta forma, nada impede que alguém colete horas de gravações de um político ou outra pessoa com grande alcance midiático e produza um vídeo falso onde sejam atribuídas a alguém palavras que jamais foram ditas, ou mesmo crimes sejam cometidos, causando assim distorção da opinião pública.

Portais de notícias e agências de checagem podem até vir a público para desmentir, mas é como nadar contra a correnteza. Segundo pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), as notícias falsas se espalham até 70% mais rápido que as verdadeiras e alcançam muito mais gente.

___________________________________________________________________________________

Cada postagem verdadeira atinge, em média, mil pessoas, enquanto as postagens falsas mais populares - aquelas que estão entre o 1% mais replicado - atingem de mil a 100 mil pessoas. - Sinan Aral, pesquisador do MIT.
___________________________________________________________________________________
 
Levando em consideração que redes sociais como o X (Twitter), Instagram, Facebook e Youtube tem sistemas de remuneração para seus usuários, surge uma lógica simples onde quanto maior é o engajamento, maior é o dinheiro a receber, então usuários estão mais dispostos a acatar esses formatos.

Dilemas éticos.


Tivemos duas peças publicitárias onde foi feito uso da Inteligência Artificial para "trazer de volta a vida" duas pessoas. Uma delas foi uma ação de Dia dos Pais realizada pelo Mercado Livre para homenagear o pai do ex-jogador de futebol Arthur Antunes Coimbra (Zico), recriando artificialmente sua voz para que ele pudesse testemunhar simbolicamente um gol de seu filho no Maracanã pela primeira vez. A ação foi um sucesso, tocou o coração de muitos torcedores e pareceu ser um entendimento geral de que a IA teve um bom uso.

Também temos o caso do uso da imagem da cantora Elis Regina (1945-1982), onde com a autorização de sua família, "participou" de um comercial da Volkswagen com sua filha ao som de "Como Nossos Pais". A ação contudo, foi criticada por muitos.


Elis Regina sempre se mostrou diretamente contra o governo da Ditadura Militar, manifestando publicamente seus descontentamentos, críticas e indignações ao longo de sua vida. Por outro lado, a Volkswagen confirmou seu envolvimento direto e voluntário com a Ditadura Militar Brasileira, e por mais que tenha reconhecido a culpa e realizado um acordo com ex-funcionários como forma de compensação, esse tema levanta algumas questões: Elis Regina teria concordado com essa isso? É justo fazer uso da imagem de falecidos sem que eles possam expressar a permissão? Não assumimos o risco de, mesmo que sem querer, desrespeitar a memória e legado de quem já se foi?

Apesar dos pontos mais polêmicos acima citados, o uso de ferramentas de IA podem ser úteis, se utilizadas de maneira correta. Vários professores tem receio que seus alunos utilizem IAs para fazerem seus trabalhos ao invés de passar pelo processo tradicional de aprendizado (pesquisar, ler, interpretar, compreender e escrever com sua visão. Ao invés de utilizar uma IA de forma preguiçosa e óbvia, por que não solicitar ideias para histórias? Recomendação de autores sobre um tema? Ou se pensarmos no ambiente de trabalho, que tal utilizar a IA para realizar trabalhos repetitivos e maçantes? Basta "alimentar" a IA com as informações necessárias e ela terá em segundos uma base de dados organizada e coesa.
Sátira da Revista Judge sobre a morte de um trabalhor em fios de alta tensão. A energia elétrica ainda era novidade e vista com cautela em 1889.


A história da humanidade mostra que várias inovações podem causar estranheza e questionamentos no início, foi assim com a indústria baleeira e seu óleo para acender lamparinas, sendo substituída aos poucos pela querosene. Essa mesma indústria olhou com maus olhos o surgimento da eletricidade, criou-se pânico ao redor da eletricidade, e aqui estamos usando nossos computadores e celulares carregados para ler este texto.

Ou seja, a menos que o mundo passe por calamidade tamanha que todo o nosso equipamento e conhecimento digital desapareça, as IAs continuarão presentes e evoluindo constantemente, ou ao menos é isso que a história da evolução da tecnologia nos mostra. Portanto, por que não sentarmos à mesa e debatermos o tema de maneira sóbria, afim de contermos os possíveis malefícios e colhermos dos possíveis benefícios?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Artigo de Opinião: Inteligência Artificial, Realidade, Democracia e debates necessários.

A Inteligência Artificial é uma das mais notáveis inovações tecnológicas dos nossos tempos, oferecendo um potencial imenso para transformar ...